domingo, 6 de junho de 2010

Entrevista com Carlos Ferreirinha, o gonçalense que faz a diferença no mercado do luxo

Simpático, inteligente, simples e sofisticado, Carlos Ferreirinha, que começou a trabalhar cedo – aos nove anos já ajudava o pai num botequim em São Gonçalo –, hoje, aos 40, seu nome é referência em um mercado altamente glamouroso. Não há como falar sobre gestão de luxo no Brasil e não se lembrar de Ferreirinha, que é considerado o maior especialista no assunto em nosso país e na América Latina.

Formado em Administração de Empresas pela Cândido Mendes, MBA em Business Marketing pela SMU University, MBA em Finanças pelo IBMEC/SP e fluente em inglês, espanhol, francês e italiano, Ferreirinha, que já foi embaixador internacional de Marketing nos EUA e presidente no Brasil da tradicional e luxuosa marca francesa Louis Vuitton, atualmente é presidente-diretor da MCF, empresa que fundou para prestar consultoria no assunto que ele mais entende: o luxo.

Eu que já sentia orgulho desse ilustre gonçalense, passei admirá-lo mais ainda quando o assisti na semana passada no programa “Márcia Peltier Entrevista”, quando no final, o homem do luxo demonstrou seu carinho por São Gonçalo.

Naquela mesma noite resolvi entrevistá-lo para o blog. Logo que terminou o programa, imediatamente, enviei-lhe um e-mail solicitando a entrevista. No dia seguinte, prestamente, sua resposta positiva já estava em minha caixa postal.

Pra fugir do óbvio, das perguntas clichês – informações sobre ele já existe a exaustão na internet. É só o leitor digitar o seu nome no Google que aparecerão várias –, preferi dar outro foco às perguntas.

Agora, é só conferir abaixo as respostas desse nobre gonçalense.

Boa leitura!

Vagner Rosa: Conforme definição dada pelo senhor, a atividade do luxo é o mercado que lida com produtos e serviços que alcança o patamar da excepcionalidade. Além da qualidade, exclusividade, preço e tradição, o que mais caracteriza essa excepcionalidade?

Carlos Ferreirinha: Mão-de-obra, matéria prima, a não concessões em todos os sentidos, a distribuição seletiva, o cuidado com a construção da marca no longo prazo. São muitas as características que serão responsáveis por esta percepção e atributo de excepcional.

Vagner: Cada segmento desse mercado tem suas marcas que simbolizam o que chamamos de status, mas numa visão global qual é a marca que representa hoje o luxo dos luxos?

Ferreirinha: Vamos dizer que algumas marcas estão exatamente nesta sua linha de reflexão: Louis Vuitton, Hermès, Gucci, Chanel, Ferrari, Hotel Ritz, Krug, Don Perrignón, Bottega Veneta... São algumas destas marcas. Mas, existem muitas outras.

Vagner: Qual é o segmento social que mais consome luxo hoje no Brasil? Empresários, esportistas, artistas, os novos ricos...

Ferreirinha: Novos ricos, ou melhor, dizendo o novo dinheiro e as novas riquezas, sem dúvida alguma. Na quantidade, os ricos tradicionais mantêm os consumos absolutos ainda de forma importante.

Vagner: Segundo estatísticas do senhor, depois de São Paulo (Capital e Interior) e do Rio de Janeiro, o Nordeste é a região onde o mercado do luxo vem crescendo consideravelmente. Qual é o fato determinante para essa percepção: os nordestinos estão enriquecendo mais que os brasileiros de outras regiões ou é a facilidade do crédito (parcelamento)?

Ferreirinha: Não necessariamente. O consumo do luxo não está somente associado ao dinheiro, mas principalmente a vontade, aos desejos, aos sonhos. O querer é mais importante do precisar. Assim, a região Norte-Nordeste brasileira quer mais do que as outras porque esteve longe deste acesso a vida inteira. Ou seja, eles se aventurarão mais em relação as outras regiões do Brasil. Não possuem o dinheiro disponível de imediato, mas se prepararão para.

Vagner: E aqui no Estado do Rio, quais são as cidades que mais consomem esse mercado depois da capital?

Ferreirinha: O consumo tradicional do luxo do Rio sempre esteve no triângulo Lagoa – Leblon – Ipanema. Muito concentrado, eu diria. Entretanto, o consumo aspiracional da região da Barra e afins tem crescido de forma exponencial e garantido os índices mais interessantes. Eu diria que após este eixo muito concentrado, a cidade do Rio como um todo em diversos outros bairros e, bem distante, Niterói poderia ser destacada. Reitero: bem distante ainda.

Vagner: Sobre a questão do parcelamento, embora essa modalidade faça parte da cultura do mercado brasileiro, esse tipo de compra no segmento de luxo não tira um pouco o status desse consumo?

Ferreirinha: Sim e não. Tira para os tradicionais. Gera acesso ao status para quem está acessando agora ou para quem se planeja através do parcelamento. Não há porque se preocupar ou se incomodar com algo que é fato no Brasil: parcelamento. Temos que apenas criar estratégias para lidar com isso.

Vagner: Segundo o senhor, o mercado do luxo é movido pelo emocional, ou seja, os consumidores compram impulsionados apenas pelo desejo de ter aquele produto, simplesmente e sem nenhuma racionalidade. Essa motivação tem um limite ou somente o céu é o limite?

Ferreirinha: Não há limites para desejos, vontades e sonhos. Os limites são apenas das próprias pessoas.

Vagner: E psicologicamente falando: há uma linha tênue nesse mercado entre o desejo e a compulsão?

Ferreirinha: Psicologicamente falando eu não tenho como precisar. Não é a minha área de especialização. Afirmo mercadologicamente que o consumo de luxo precisa dos que desejam e dos que são compulsivos no consumo. Existem clientes de todas as formas que se manifestam de todas as formas.

Vagner: Há um tempo, o conhecimento de algumas grifes de luxo se restringiam apenas as classes abastadas. Hoje, os camelôs, por exemplo, da Rua Uruguaiana (Rio), vendem produtos falsificados com a marca da Louis Vuitton, Diesel, Chanel, entre outras. O que causou a popularização dessas marcas junto às classes populares?

Ferreirinha: a democratização do luxo. O vasto acesso ao marketing de luxo. O enriquecimento do mundo como um todo, fazendo com que símbolos tradicionais de consumo se tornassem desejados pela maioria. A vontade expressiva de uma base cada vez maior de pessoas pela busca de símbolos de status que geram diferenciação.

Vagner: E essa popularização não tira um pouco o glamour dessas marcas, já que a exclusividade é um dos símbolos de status?

Ferreirinha: Sem dúvida alguma. A verdade é que reside exatamente em sua pergunta o maior e o mais complicado desafio da atualidade do segmento do luxo: como crescer mantendo a percepção da exclusividade.

Vagner: Segundo Joãozinho Trinta, “Pobre gosta de luxo! Quem gosta de pobreza é intelectual!”. O senhor concorda com essa afirmação?

Ferreirinha: Joãozinho foi poético neste comentário. Tirando a emoção do comentário, todos nós somos educados pelo o que é belo ou que de alguma forma seja especial, ou que seja percebido como melhor. Desta forma, concordo.

Vagner: Voltando as atenções agora para a realidade gonçalense, como o senhor se sente quando observa a sua trajetória: de um rapaz que saiu de uma cidade pobre e sem glamour para o mundo do luxo hoje, passando pela presidência de uma luxuosa grife francesa e sendo atualmente considerado o maior especialista desse mercado no país?

Ferreirinha: Sem qualquer tipo de glamour na resposta. São Gonçalo representa o que sou. A minha trajetória profissional representa minha especialização técnica. Sou um especialista no tema e não o consumidor.

Vagner: Quais são as lembranças que o senhor guarda de São Gonçalo?

Ferreirinha: Família, amigos e tempo. Tempo inclusive para pensar no que eu queria fazer. A correria e a pressa eram menores. Ônibus, barca e ponte. O bar do meu pai. Visita a primos e tia. Escola. Curso de inglês. Datilografia (parece que é o século passado), ou seja, tudo que era simples e que me formou.

Vagner: A nossa cidade, embora tenha progredido um pouco, infelizmente, ainda é muito estigmatizada com adjetivos nada simpáticos como: cidade dormitório, pobre, feia, violenta, inculta, entre outros. Se o senhor fosse contratado para reposicionar a imagem de São Gonçalo, o que o faria para glamourizá-la um pouco?

Ferreirinha: Não acho que São Gonçalo precisa ser reposicionada. São Gonçalo precisa ser gerenciada e não somente politicamente dirigida. São Gonçalo carece de vontade política. Uma pena. Uma vergonha.

Vagner: O senhor é um homem que trabalha e transita num universo muito glamouroso e vaidoso onde ter status é uma condição obrigatória, e, no entanto, não se incomoda em declarar que é gonçalense. Poderia simplesmente dizer que é do Rio de Janeiro e pronto, porém faz questão de informar a sua cidade de nascimento...

Ferreirinha: Porque caso contrário não seria real e verdadeiro. Seria uma farsa. E com isso entro em conflito inclusive com aquilo a qual me especializei profissionalmente: excelência.

Vagner: Sendo assim, qual é o recado que o senhor manda para aqueles que sentem vergonha de São Gonçalo a ponto de negar que nasceram ou residem aqui?

Ferreirinha: Terapia seria um bom caminho...

Vagner: Carlos Ferreirinha, muito obrigado pela entrevista! O senhor é uma grande referência para todos nós! A sua trajetória profissional e o seu orgulho de ser gonçalense agregam enorme valor à imagem de nossa cidade. Felicidades e sucesso sempre!

Ferreirinha: Gentil de sua parte. Acredite: não há esforço nisso. É apenas o que é. Nada mais.

Saiba mais sobre o mercado do luxo e da vida de Carlos Ferreirinha. Assista suas últimas entrevistas na TV – “Show Business” (João Dória Jr.), Amaury Junior e outras...

Para assistir, clique Aqui.


9 comentários:

  1. Vagner, discordo quando disse que São Gonçalo, é uma cidade feia, violenta, pode não ser bonita a realidade é que se tem muito o que fazer por aqui, mas também não é das piores e nem tão violenta como enfatizou, sou gonçalense e muito me orgulho disso.
    Parabéns ao Ferreirinha por não negar sua origem.

    Ps: Amei a matéria.

    Joci Carla

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  2. Joci,

    O que eu disse não é necessariamente o meu pensamento. Infelizmente, é a percepção que tenho nas opiniões das pessoas de fora. Isso, sem dúvida, tem muito a ver com a desinformação e, principalmente pelo fato de a grande mídia só veicular noticias negativas sobre São Gonçalo.

    Nós, que moramos aqui, sabemos que o nosso município não é nenhum paraíso, mas que também está muito, mas muito longe, léguas de distância de ser considerado um inferno.

    Quando eu fiz a pergunta ao Carlos Ferreirinha sobre a necessidade de reposicionar a imagem de nossa cidade dando um pouco mais de glamour a ela foi no sentido de desfazer essa visão negativa que muitos têm em relação ao seu cotidiano.

    E ele respondeu com muita propriedade que a cidade precisa é ser bem gerenciada, e que está faltando vontade política.

    Ele está correto! O que mais precisamos de fato é vontade política. Infelizmente, a impressão que temos é que os políticos da cidade estão se lixando para São Gonçalo.

    Nosso município é riquíssimo em história, cultura e potencial econômico, entretanto falta aos nossos políticos uma visão de águia para perceber que esses recursos poderiam ser muito bem explorados em prol da cidade trazendo grandes progressos para todos nós.

    Mas como eu disse, a cidade vem progredindo. Pouco, mas vem... Só que, infelizmente, continua estigmatizada de forma negativa para os de fora. É por essas e outras que criei este blog para destacar os nossos pontos positivos com o objetivo de dissipar esses equívocos.

    Precisamos mostrar as nossas belezas, valorizar a nossa história, realçar os nossos potenciais e destacar os nossos talentos, como por exemplo, o que estou fazendo por meio dessa entrevista com Carlos Ferreirinha, que é um gonçalense que faz a diferença brilhantemente, agregando um valor enorme à imagem da cidade, além de promover subjetivamente a autoestima em todos nós fazendo-nos sentir orgulho de ser gonçalense.

    São Gonçalo tem seus encantos, sim, só precisa ser mais destacados!

    Joci, obrigado pela sua participação e continue nos prestigiando com sua leitura e suas considerações.

    Saudações gonçalenses,

    Vagner Rosa

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  3. Vagner obrigado por nos proporcionar um conteúde de qualidade sobre São Gonçalo.

    Parabens pela entrevista!

    Virei fâ do Carlos Ferreirinha... que elegancia tem este homem!

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  4. Para reflexão dos gonçalenses que dizem morar em Niterói (?) --> "não seria real e verdadeiro. Seria uma farsa. E com isso entro em conflito"... Achei profundo.

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  5. Antônio José Chaves10 de junho de 2010 14:29

    Vagner, parabéns pela iniciativa do blog e pela entrevista.

    Sou fã do Ferreirinha há uns 25 anos, quando ele promovia os bailes do Encontro de Adolescentes com Cristo, que marcaram época em SG.

    São sábias e oportunas suas palavras às vésperas de mais uma eleição: "São Gonçalo precisa ser gerenciada e não somente politicamente dirigida." Vereadores e prefeitos aqui se sucedem, mas administradores públicos de fato, são escassos em nosso município.

    Tenho orgulho de ser gonçalense, mas uma enorme frustração em ver que ainda hoje uma cidade com 2 vezes a população e o tamanho de Niterói tenha menos hospitais públicos, por exemplo, que o município vizinho.

    Cadê nossa própria rodoviária interestadual? Onde foi parar o projeto das Barcas que sairiam de SG para o Rio, das quais ouço falar desde criança? Por quê ainda temos de sair do município para desfrutar das opções de entretenimento que poderíamos ter aqui mesmo?

    A resposta é uma só: temos políticos, falta-nos gerenciamento. Carecemos de vontade política, de mais parcerias públicas com a inicitiva privada, de levar a determinação e ousadia das campanhas para os mandatos.

    Enfim, quero poder um dia me envaidecer de São Gonçalo como me envaideço de um dia ter conhecido e ainda hoje manter a amizade do Ferreirinha. Quando ele próprio afirma que São Gonçalo representa o que ele é, faz-nos todos sentirmos ainda mais orgulho de vê-lo representando e citando nosso município mundo afora.

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  6. Vagner, parabéns pela entrevista!

    Parabéns também ao Sr. Carlos Ferreirinha que é um homem super conceituado dentro da sua especialização e no, entanto, não é arrogante.Tinha tudo pra ser, mas não é.

    Achei ele muito verdadeiro em suas palavras.

    Valeu!

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  7. Vagner,

    Continue com esse trabalho brilhante que faz aqui divulgando a beleza da cidade de São Gonçalo e suas personalidades. Acho até que seria interessante entrevistar pessoas que gostam da nossa cidade, transeuntes mesmo, pois reforça nossas convicções e pensamentos.

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  8. adoro morar em sao gonçalo nao e nada violenta essa cidade nao e a mais bonita que ja vi mais gosto de morar aqui em sg

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  9. Grande amigo de muitos anos, conheço desde criança. O que mas me alegra é que mantem a simplicidade que sempre foi caracteristica não só dele mas de toda a família. Um abraço e parabéns pela entrevista.

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